67ª Cúpula do MERCOSUL em Foz do Iguaçu: Venezuela no centro do dissenso e acordo com a União Europeia segue sem desfecho
Por Marcelo de Castro*
Gostaria de refletir com vocês sobre uma coisa que me inquieta sempre que a política internacional decide brincar de comércio exterior como se fosse um tabuleiro de slogans. Saí da 67ª cúpula, em Foz do Iguaçu, com a sensação de que não assistimos apenas a mais um capítulo de negociações longas. Assistimos a um espelho. E o espelho, quando é honesto, não mostra o que a gente gostaria de anunciar. Mostra o que a gente precisa admitir.
Foz do Iguaçu, por si só, dispensa metáforas fáceis. Ali a geografia não é paisagem: é método. A tríplice fronteira é o lugar onde a política vira rotina operacional, onde o tempo vira custo, onde o dado vira decisão e onde a indecisão vira fila. E fronteira, dita sem romantismo, é bem-estar social: é comida que chega, é remédio que não atrasa, é peça que mantém a fábrica rodando, é emprego que não evapora por falta de previsibilidade. Minha alma de economista e despachante aduaneiro sabe que, quando uma cúpula falha em produzir clareza, quem sente primeiro não é o plenário. É o cotidiano.
O ponto mais revelador não foi um gesto isolado, mas a incapacidade de fechar uma linguagem comum. A reunião existiu, os ritos foram cumpridos, os discursos foram feitos, mas o resultado político não conseguiu virar síntese. E quando um bloco regional não consegue transformar divergência em método, ele passa a depender do improviso. Improviso parece flexibilidade na tribuna, mas na fronteira ele se converte em insegurança, em exigência sobreposta, em contencioso, em decisão desigual.
Nesse cenário, a Venezuela não apareceu como “tema” e sim como prova de estresse. Não é uma discussão que aceite caricaturas, nem pelo drama humano envolvido, nem pela complexidade regional que a cerca. O problema, para o Mercosul, é institucional: quando a divergência sobre um assunto sensível ocupa o centro e não há mecanismo para produzir um mínimo denominador comum, a governança começa a falar por ausência. E a ausência, em comércio exterior, quase sempre vira um excesso em outro lugar: mais barreiras tácitas, mais custos de conformidade, mais incerteza para quem só quer operar corretamente.
Ao mesmo tempo, o acordo com a União Europeia continua orbitando como promessa e frustração. Depois de décadas, ele deixou de ser apenas um instrumento e virou símbolo. E é aqui que entra, em dose sutil, uma leitura psicanalítica do impasse: quando a assinatura se transforma no objeto absoluto do desejo, ela ganha contornos de fetiche institucional. O fetiche tem esse efeito: concentra a energia no desfecho imaginado e desloca o foco daquilo que, na prática, sustenta a integração no dia a dia. O “quase” repetido exaure por dentro, porque acostuma o sistema a viver de aproximações.
Faço questão de ajustar o tom para evitar alarmismo. Mesmo que a assinatura tivesse ocorrido, ela não mudaria o dia seguinte como passe de mágica. A natureza desses acordos é de médio prazo: depende de trâmites internos, etapas de implementação, adaptação regulatória e capacidade administrativa para virar previsibilidade real. O valor político do gesto é enorme, mas o efeito econômico é gradual. O dano maior, portanto, não é a ausência do efeito imediato. É a mensagem prolongada de incerteza, que corrói planejamento e investimento.
É aqui que a crítica precisa ser honesta e, ao mesmo tempo, útil. John Rawls escreveu: “Justice is the first virtue of social institutions.” Quando uma instituição não consegue alinhar o que declara com o que executa, a justiça falha na distribuição dos custos. Em comércio exterior, o custo do impasse não cai igualmente. Ele cai mais pesado sobre quem tem menos margem, menos acesso, menos capital, menos poder de barganha. A indecisão, nesse mundo, não é neutra. Ela escolhe perdedores.
Milton Friedman disse a mesma coisa com outra música: “There is no such thing as a free lunch.” Quando decisões são empurradas, alguém paga a conta. E quase sempre quem paga primeiro é a cadeia logística, com reflexo direto no bem-estar social. A diplomacia pode chamar de “tempo político”. A fronteira chama de “dias a mais”, “custo a mais”, “risco a mais”. E a vida comum chama de preço.
O mundo em que isso acontece também mudou de natureza. Protecionismo e seletividade viraram regra, e comércio virou extensão de segurança, tecnologia e reputação. Acordo hoje não é apenas tarifa: é origem, rastreabilidade, integridade, cláusulas ambientais, governança de risco, padronização de dados. Em outras palavras, é aduana. E a aduana contemporânea é cada vez mais digital, baseada em informação, interoperabilidade, gestão de risco e coordenação entre órgãos. Quando a política não entrega método, o técnico vira refém. E quando o técnico vira refém, a fronteira perde previsibilidade.
Por isso, a parte mais valiosa de um bloco regional raramente está na frase grande. Está na engrenagem silenciosa que reduz fricção: normas de origem que funcionam, procedimentos que se harmonizam, dados que conversam, controles integrados que evitam retrabalho, sistemas que entregam rastreabilidade com governança. Isso não rende aplauso, mas rende competitividade. E competitividade, aqui, não é slogan. É capacidade de fazer o fluxo acontecer sem punir o operador honesto.
É nesse ponto que o bilateralismo aparece como tentação. Quando o consenso regional é difícil, o atalho bilateral seduz com promessa de rapidez e controle. Só que, na operação, ele costuma criar inflação regulatória: cada acordo puxa regras próprias, exceções próprias, listas próprias, requisitos próprios. Multiplicado por vários parceiros, vira floresta normativa. E floresta normativa exige fiscalização mais dura, compliance mais caro, sistemas mais sofisticados. O ganho político pode existir. O custo de coordenação quase sempre cresce.
E o multilateralismo, tão criticado, não “morreu”. Ele mudou de função. Virou infraestrutura: linguagem comum, padrão mínimo, coordenação possível, previsibilidade técnica para evitar que o comércio vire Babel. O risco, hoje, é outro: que ideologias e urgências bilaterais contaminem as instituições, ou pelo menos tensionem seus líderes e seus instrumentos, empurrando o mundo para exceções permanentes, para seleções opacas, para regras que mudam conforme o vento. Quando isso acontece, o preço é pago na ponta por quem precisa de previsibilidade para produzir, importar, exportar e cumprir.
No fim, a 67ª em Foz do Iguaçu ensinou algo que não cabe em foto oficial. Blocos regionais não serão salvos por entusiasmo nem por liturgia. Serão salvos por governança. Governança é método para lidar com dissenso sem paralisar o conjunto. É proteger a agenda técnica do ciclo das paixões. É transformar digitalização em previsibilidade, não em verniz.
Minha alma de economista e despachante aduaneiro não pede um Mercosul perfeito. Pede um Mercosul funcional. Um Mercosul que entenda que, numa era em que o mundo negocia com filtros, com desconfiança e com pressa, a virtude mais estratégica de um bloco não é a retórica. É a capacidade de entregar fronteira como bem-estar social. Porque, quando a cúpula não decide, a fronteira decide por inércia. E a inércia, no comércio exterior, sempre cobra.
*Marcelo de Castro é Despachante Aduaneiro e Diretor de Marketing Institucional do SINDASP – Responsável pelas Relações Institucionais e Comunicação da ASAPRA — Asociación Internacional de Agentes Profesionales de Aduana, organização intercontinental com representação no Comitê Consultivo do Setor Privado (PSCG) da Organização Mundial das



