Operação Thunder 2024: O Assalto Final Contra a Natureza e o Papel do Comércio Global

Por Marcelo de Castro Ferreira*

Os números são contundentes. O impacto, avassalador. E a pergunta que se impõe é: até quando?

Entre 11 de novembro e 6 de dezembro de 2024, a World Customs Organization (WCO) e a INTERPOL lideraram a Operação Thunder 2024, uma ofensiva coordenada contra o tráfico internacional de vida selvagem e produtos florestais. O resultado expõe a escala do problema: quase 20.000 animais vivos resgatados, 365 suspeitos detidos, 2.213 apreensões em 138 países. Mas o que esses números revelam vai além das operações policiais – eles apontam para um modelo econômico que, há décadas, vem transformando a natureza em mercadoria e o crime ambiental em um dos negócios ilícitos mais lucrativos do mundo.

De acordo com a WCO, o tráfico de espécies protegidas movimenta entre USD 7 e 23 bilhões por ano, figurando entre os crimes transnacionais mais rentáveis, ao lado do tráfico de drogas e de armas. Mas há uma peculiaridade que o distingue dos demais: ele é invisível para muitos, diluído nos meandros do comércio global. Contêineres, pacotes de remessas expressas, encomendas postais e mercados digitais tornam-se vias silenciosas para um fluxo contínuo de produtos ilegais – escamas de pangolim, barbatanas de tubarão, marfim, madeira extraída de florestas intocadas. Tudo escondido à vista de todos.

Se, em tempos passados, a devastação ambiental era percebida como um subproduto da expansão econômica, hoje está claro que a destruição da biodiversidade é um risco existencial. O tráfico de fauna e flora não é apenas um atentado contra os ecossistemas, mas uma ameaça à segurança internacional, alimentando redes criminosas sofisticadas que financiam corrupção, lavagem de dinheiro e outras atividades ilícitas.

A Geopolítica do Tráfico: Os Números da Operação Thunder

A análise das apreensões da Operação Thunder 2024 oferece um panorama inquestionável sobre a devastação em curso:

Animais Vivos Apreendidos

  • Pássaros: 12.427
  • Tartarugas: 5.877
  • Outros répteis: 1.731
  • Primatas: 33
  • Grandes felinos: 18
  • Pangolins: 12

Produtos Derivados do Tráfico de Fauna e Flora

  • Madeira ilegal: 214,9 toneladas e 1.340 m³
  • Marfim de elefantes: 303 kg e 348 peças, além de 1.512 kg de partes do corpo
  • Escamas de pangolim: 4.488 kg
  • Peças de tigres e outros grandes felinos: 100 unidades
  • Produtos marinhos, incluindo barbatanas de tubarão e pepinos-do-mar: 5,9 toneladas

A geografia do tráfico é um espelho da realidade geoeconômica global: mercadorias extraídas em um hemisfério, transportadas clandestinamente por rotas transcontinentais, e consumidas em mercados de luxo do outro lado do planeta. E, no epicentro desse comércio ilícito, encontram-se as fronteiras alfandegárias.

Aduanas Verdes e a Fronteira Como Espaço de Proteção Ambiental – Diante desse cenário, as administrações aduaneiras assumem um papel determinante na contenção do tráfico ambiental. A Iniciativa Aduanas Verdes, da WCO, surge como uma resposta estruturada para fortalecer a fiscalização e o cumprimento dos Acordos Ambientais Multilaterais (MEAs), como a Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção (CITES).

Desde 2001, a WCO, em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP), tem promovido capacitação técnica para os agentes alfandegários, visando aprimorar a detecção e repressão ao comércio ilegal de espécies protegidas. A CITES, por sua vez, estabelece o arcabouço legal para a regulamentação do comércio de mais de 38.000 espécies de fauna e flora, conferindo aos países-membros mecanismos para barrar a exploração predatória da biodiversidade.

Entretanto, a eficácia dessas medidas depende diretamente do envolvimento do setor privado, especialmente das empresas de transporte, logística, e-commerce e serviços financeiros, cujas plataformas são frequentemente utilizadas por redes criminosas para movimentar cargas ilícitas.

O Setor Privado: Cúmplice ou Guardião? – Se há um elemento inegável nesse complexo xadrez, é que o setor privado desempenha um papel crítico – para o bem ou para o mal. Muitas empresas, sem qualquer intenção criminosa, tornam-se veículos involuntários para o tráfico de vida selvagem. Outras, por falta de regulamentação ou fiscalização, preferem ignorar o problema.

Diante disso, algumas medidas são imperativas:

  • Monitoramento da cadeia de suprimentos: Transportadoras e empresas de logística precisam adotar tecnologias de rastreamento que permitam identificar remessas suspeitas.
  • Controle sobre plataformas de e-commerce: Marketplaces digitais devem implementar sistemas de verificação para impedir a venda de produtos derivados de espécies protegidas.
  • Transparência financeira: Instituições bancárias e fintechs precisam aprimorar mecanismos de due diligence para rastrear transações associadas ao tráfico de vida selvagem e madeira ilegal.
  • Adesão a iniciativas globais: Empresas comprometidas com práticas ESG devem engajar-se em programas como a Green Customs Initiative e a United for Wildlife Transport Taskforce.

O setor privado não pode continuar permeável à atividade criminosa nem blindado contra sua própria responsabilidade. Como bem destacou Valdecy Urquiza, Secretário-Geral da INTERPOL, “as redes criminosas exploram a natureza para lucrar com a ganância humana, gerando impactos devastadores para a biodiversidade, o clima e a segurança global”.

O Futuro que escolheremos – Se a história recente nos ensinou algo, é que o colapso ambiental não é uma ficção distante, mas uma realidade já em curso. Os números da Operação Thunder 2024 não são meramente estatísticas de um crime transnacional – são símbolos do destino da vida no planeta.

Quando olharmos para trás e nos perguntarmos como deixamos a Terra chegar a esse ponto, a resposta não estará apenas nos caçadores furtivos, nos madeireiros ilegais ou nos traficantes. Estará nas políticas públicas que falharam, nas empresas que preferiram não ver, nos consumidores que continuaram comprando.

A WCO e a INTERPOL estão cumprindo seu papel. Mas o combate ao tráfico de vida selvagem não será vencido apenas nos corredores das alfândegas ou nas operações policiais. Ele será decidido no campo econômico, na integridade das cadeias de suprimentos e na responsabilidade das corporações globais.

O comércio internacional pode ser um instrumento de destruição ou um mecanismo de proteção. Cabe a nós decidir qual será seu legado.

*Marcelo de Castro Ferreira é Despachante Aduaneiro e Head de Marketing Institucional do SINDASP (Sindicato dos Despachantes Aduaneiros de São Paulo) e da ASAPRA (Asociación Internacional de Agentes Profesionales de Aduanas)