Temas sensíveis marcam o mês de setembro nas cúpulas internacionais: o comércio no epicentro de guerras, sanções e inteligência artificial

*Por Marcelo de Castro

GENEBRA/BRUXELAS/NOVA IORQUE, 28 set — O comércio internacional voltou ao centro da diplomacia global em setembro de 2025, quando a Organização Mundial do Comércio (OMC) projetou ganhos associados à inteligência artificial, a Organização Mundial das Aduanas (OMA) publicou nova versão do seu padrão de segurança e o Conselho de Segurança da ONU discutiu sanções ao Irã e os riscos do uso de IA em conflitos. Apesar de agendas distintas, três eixos conectaram os debates: segurança das cadeias, digitalização como infraestrutura e inclusão de pequenos atores.

Em Genebra, a OMC apresentou o World Trade Report 2025 durante o Public Forum. O estudo estima que a IA pode aumentar o valor do comércio global em até 40% até 2040, desde que países consigam reduzir lacunas em interoperabilidade de dados, padrões técnicos e capacitação. A diretora-geral Ngozi Okonjo-Iweala defendeu maior coordenação regulatória para evitar fragmentação digital. Delegações alertaram que, sem medidas corretivas, os ganhos podem se concentrar em grandes economias, ampliando desigualdades. No mesmo fórum, a China anunciou que deixará de pleitear benefícios do “tratamento especial e diferenciado”, movimento interpretado como tentativa de reposicionamento político e gesto para destravar negociações paralisadas sobre reforma institucional.

Em Bruxelas, a OMA não reuniu ministros, mas divulgou a atualização do SAFE Framework 2025, documento normativo que orienta práticas de segurança e facilitação aduaneira. As novidades incluem abertura de programas de Operador Econômico Autorizado (AEO) a micro, pequenas e médias empresas (MSMEs), a exigência de códigos de conduta como critério de certificação e a formalização de ameaças internas (insider threats) como risco prioritário. O texto, segundo especialistas ouvidos por veículos setoriais, desloca a prova de confiança de barreiras físicas para governança corporativa, rastreabilidade digital e cooperação entre agências. A Aduana News avaliou que a inclusão das MSMEs representa marco para pequenos exportadores latino-americanos, embora consultores da Jeune Afrique tenham alertado para a exclusão de países sem infraestrutura digital adequada.

Em Nova Iorque, o Conselho de Segurança discutiu o “snapback” de sanções ao Irã, decisão que expôs divisões entre membros permanentes e europeus e deve afetar prêmios de seguro marítimo, custos de frete e fluxos de energia. O Le Monde destacou que sanções atuam como “mecanismo logístico” tanto quanto instrumento diplomático. Em paralelo, a escalada em Gaza evidenciou os efeitos de bloqueios sobre cadeias locais: agricultores e pequenos comerciantes foram os primeiros atingidos, segundo cobertura da Al Jazeera. Delegações também discutiram riscos do uso de IA em operações militares e ciberataques contra infraestrutura crítica, debate descrito pelo New York Times como sinal de que a mesma tecnologia capaz de acelerar desembaraços aduaneiros pode ampliar vulnerabilidades em teatros de conflito.

Analistas consultados indicam convergência entre as três arenas. O SAFE 2025 amplia a rede de confiança além de grandes corporações, o relatório da OMC vincula os ganhos de IA à existência de padrões comuns e à redução da exclusão digital, e as deliberações na ONU reforçam que decisões políticas podem reconfigurar rotas e custos em questão de dias. A leitura predominante é que cadeias resilientes dependem de confiança distribuída entre todos os elos, incluindo operadores menores.

Observadores também apontaram limites estruturais. A OMC e a ONU representam governos, não povos diretamente, e suas decisões refletem alianças políticas e interesses nacionais. Mesmo a OMA, de caráter técnico, é atravessada por assimetrias: países com maior capacidade institucional e digital implementam o SAFE integralmente e capturam benefícios de reconhecimento mútuo, enquanto outros ficam em defasagem.

Para empresas de logística e comércio exterior, interlocutores destacaram implicações práticas imediatas: maior peso de compliance e governança como prova de confiança, investimentos crescentes em rastreabilidade digital e oportunidades de inclusão de pequenas empresas em programas AEO, desde que cumpram exigências de integridade. Operadores também acompanham de perto cenários de custo com seguros e fretes ligados às sanções contra o Irã e ajustes regulatórios em comércio digital. Associações setoriais projetam que a expansão de regimes de confiança pode reduzir inspeções duplicadas e simplificar fronteiras, mas alertam que isso depende de adesão regulatória ampla e interoperabilidade entre administrações.

Ao final de setembro, o balanço mostra que, em linguagem distinta, OMC, OMA e ONU caminharam na mesma direção: cadeias mais seguras, digitalmente governadas e com maior inclusão de atores pequenos e médios passam a ser vistas como condição para preservar a fluidez do comércio em um ambiente de choques geopolíticos. A avaliação, na leitura de um despachante aduaneiro especializado em relações institucionais e analista econômico, é que a convergência entre padrões técnicos, decisões políticas e avanços tecnológicos já redefine a forma como o comércio se organiza e como operadores privados calculam riscos no cotidiano.

*Marcelo de Castro é Despachante Aduaneiro e Diretor de Marketing Institucional do SINDASP – Responsável pelas Relações Institucionais e Comunicação da ASAPRA — Asociación Internacional de Agentes Profesionales de Aduana, organização intercontinental com representação no Comitê Consultivo do Setor Privado (PSCG) da Organização Mundial das