O tratado ainda precisa da aprovação do Parlamento Europeu para ser entrar em vigor, mas a aprovação do ACORDO UNIÃO EUROPEIA X MERCOSUL abre caminho para a assinatura do texto entre os blocos. Segundo o Ministério das Relações Exteriores da Argentina, a expectativa é que o Mercosul assine o acordo com a UE em 17 de janeiro. A novidade, aguardada há 25 anos, ocorre em um momento particularmente sensível para o agronegócio brasileiro.
Mais do que uma abertura adicional de mercado, o tratado passa a ser visto como peça-chave de diversificação comercial em um cenário no qual o principal destino da carne bovina brasileira, a China, começa a impor limites mais claros ao ritmo das importações.
Após mais de duas décadas de negociações, o acordo UE–Mercosul tem potencial para provocar uma das maiores reconfigurações no comércio agrícola global das últimas décadas.
Para o Brasil, representa a possibilidade de ampliar exportações com maior valor agregado para um mercado sofisticado e com maior previsibilidade institucional. Para a União Europeia, o desafio é conciliar interesses geopolíticos, proteção ambiental e forte pressão interna de produtores rurais.
Peso do agro brasileiro – Os dados mostram que a UE já ocupa papel central no agro brasileiro, mesmo sem o acordo em vigor.
Nos 11 primeiros meses de 2025, as exportações agropecuárias do Brasil para o bloco europeu somaram US$ 22,89 bilhões, segundo o sistema Agrostat, do Ministério da Agricultura, valor menor que os US$ 27,71 bilhões registrados no mesmo período de 2024, mas com representação de 48,5% de todas as vendas externas do setor.
A carne bovina é um dos principais destaques: os embarques para a UE alcançaram US$ 820,15 milhões de janeiro a novembro, um salto de 83,2% na comparação anual — ficando atrás apenas de China e Estados Unidos como destino em termos de valor.
Na carne de frango, o bloco foi o sexto principal destino, com US$ 457,99 milhões exportados. Já no café verde, a UE foi o principal destino, com US$ 6,43 bilhões em vendas nos 11 primeiros meses de 2025 — US$ 1,22 bilhão a mais que no mesmo período de 2024.
No complexo soja, a UE foi o terceiro maior destino, com quase US$ 6 bilhões em embarques. Na celulose, mesmo com queda de 12,9% nas exportações, o bloco manteve-se como o segundo maior mercado, respondendo por 21,1% do total exportado, com receitas de US$ 1,98 bilhão.
Se o acordo entrar em vigor, está prevista a redução ou eliminação de tarifas para produtos como carnes, açúcar, etanol, suco de laranja, café e celulose — medidas que podem ampliar ainda mais a competitividade brasileira no mercado europeu.
Concessões europeias para viabilizar o acordo – Para reduzir a resistência interna na UE, especialmente entre agricultores de França, Itália e Hungria, a Comissão Europeia anunciou que vai reduzir tarifas de importação sobre certos fertilizantes que são insumos básicos para a agricultura do bloco.
A proposta prevê zerar as tarifas padrão de 6,5% sobre a ureia e de 5,5% sobre a amônia — dois dos fertilizantes mais usados na produção.
Além dessa proposta, a UE também estuda medidas para permitir a suspensão temporária da taxa de carbono na fronteira (CBAM) para determinados produtos importados, reduzindo custos no curto prazo para os agricultores europeus.
Salvaguardas europeias – Ao mesmo tempo em que avança na abertura comercial, a União Europeia reforça mecanismos de proteção internos.
Entre eles, foi criado um “gatilho automático”. Se as importações de produtos agrícolas do Mercosul crescerem mais de 8% em relação ao ano anterior, a Comissão Europeia pode abrir investigações e adotar medidas corretivas, como reintroduzir tarifas temporárias ou limitar volumes.
Esse percentual de 8% representa um meio-termo político entre propostas anteriores, que iam de 5% a 10%, e se aplica principalmente a cadeias consideradas sensíveis, como carne bovina, frango e açúcar, que têm forte peso político na Europa.
As exigências ambientais continuam sendo um ponto de tensão, incluindo demandas por combate ao desmatamento, rastreabilidade da produção, cumprimento rigoroso de normas sanitárias e respeito a compromissos climáticos internacionais. Tais exigências elevam custos e tendem a favorecer grandes produtores já organizados.
Importância da diversificação – Enquanto a Europa debate salvaguardas preventivas, a China — principal destino da carne bovina brasileira — implementou um sistema de cotas que entrará em vigor em 1º de janeiro de 2026, estabelecendo uma cota inicial de 1,106 milhão de toneladas com tarifa de 12% dentro da quota e uma sobretaxa de 55% fora dela — resultando em uma tarifa total de 67% sobre volumes excedentes.
Em 2025, as importações chinesas de carne bovina brasileira somaram aproximadamente 1,7 milhão de toneladas, o equivalente a 48,3% de todo o volume exportado pelo Brasil. Frente a isso, entidades como ABIEC e CNA afirmam que ajustes na cadeia produtiva serão necessários para evitar impactos mais amplos sobre pecuaristas e exportadores.
Europa como alternativa estratégica – Nesse contexto, o acordo UE–Mercosul ganha ainda mais relevância para o agronegócio brasileiro. Embora o mercado europeu seja mais exigente e politicamente sensível, ele oferece maior previsibilidade institucional e valor agregado.