Portugal, epicentro aduaneiro: a XVII Reunião Mundial de Direito Aduaneiro redefine os rumos do comércio internacional

Por Marcelo de Castro*

I. Uma cidade com memória: quando a história do comércio se projeta no presente

Porto não foi escolhida por acaso. Suas pedras centenárias ainda guardam o eco das grandes navegações, das alfândegas imperiais e das rotas atlânticas. A antiga Alfândega do Porto, hoje convertida em Centro de Congressos à beira do Douro, será novamente palco de debates internacionais — mas, desta vez, sobre o futuro das próprias fronteiras. Entre os dias 3 e 5 de setembro de 2025, a cidade sediará a XVII Reunião Mundial de Direito Aduaneiro, transformando-se no epicentro das discussões mais estratégicas da governança comercial global.

O retorno do evento a Portugal, após mais de 15 anos desde a edição em Lisboa (2009), não é apenas simbólico: é oportuno. Em meio a guerras tarifárias, conflitos regulatórios, crises geopolíticas e uma crescente fragmentação das cadeias logísticas, reunir as vozes técnicas e jurídicas da comunidade aduaneira mundial é um gesto político. Sob o lema “Controle Aduaneiro na era da Sustentabilidade, Digitalização e Segurança num cenário de Guerra Comercial”, a reunião promete mais que diagnósticos: aponta caminhos.

II. Eixos temáticos: entre o realismo técnico e a urgência regulatória

A programação da Reunião Mundial foi desenhada em torno de cinco eixos temáticos estratégicos, que espelham os desafios centrais do comércio internacional contemporâneo:

  1. Sustentabilidade e comércio verde
    Regulamentações ambientais estão deixando de ser apenas condicionantes técnicas para se tornarem cláusulas centrais dos acordos comerciais. A presença de especialistas como Lars Karlsson (Maersk), Florencia Sarmiento (IISD) e Axel Marx (Universidade de Leuven) confirma que a conformidade ambiental deixou de ser um diferencial e tornou-se uma exigência sistêmica.
  2. Transformação digital e inteligência artificial nas aduanas
    O uso de IA na classificação, na gestão de riscos e na rastreabilidade das cadeias é inevitável. A mesa com Natalia Mathá (Universidade de Klagenfurt) e António Côrte-Real Neves aponta para uma nova fronteira de tecnopolítica aduaneira: algoritmos também classificam, e isso impõe novos debates sobre transparência e justiça fiscal.
  3. Segurança na cadeia logística e combate a ilícitos
    Em um mundo onde o terrorismo, o contrabando e as falsificações coexistem com megaplataformas de e-commerce, a lógica do operador confiável ganha ainda mais importância. Fernando Pieri Leonardo (ABEAD) e Fabiano Coelho (Receita Federal do Brasil) trarão visões sobre como o OEA pode se transformar em política pública de segurança.
  4. Geopolítica, guerras comerciais e medidas de defesa
    A tensão crescente entre grandes blocos, os embargos, as sanções e o uso das tarifas como armas de pressão tornaram o Direito Aduaneiro uma ferramenta geopolítica. A presença de Alejandro Ramos Gil, ex-presidente da ASAPRA e da IIFA, e do Prof. Hans-Michael Wolffgang (Universidade de Münster), amplia esse olhar para além do tecnicismo.
  5. Capacitação profissional e fortalecimento institucional
    Em um cenário em que a velocidade regulatória supera a capacidade de atualização dos profissionais, a formação torna-se pilar. Karolyn Salcedo e Alejandro Arola darão o tom deste painel: formar para antecipar, e não apenas para reagir.

III. Presenças estratégicas: pluralidade, relevância e projeção continental

Entre os nomes confirmados estão Helena Borges, diretora-geral da Autoridade Tributária e Aduaneira de Portugal; Sara Armella, conselheira da Junta Diretiva da ICLA; Andrés Rohde Ponce, presidente da ICLA e voz influente da doutrina aduaneira no espaço ibero-americano; e Mário Jorge, bastonário da Ordem dos Despachantes Oficiais (ODO), anfitrião institucional do evento.

Outras presenças confirmadas: Dr. Cláudio Pereira e Raquel SegalLa, aduaneiristas e observadores da conjuntura aduaneira regional; Henry Thompson Arguello, consultor jurídico da ICLA e um dos fundadores da entidade; e Elson Isayama, presidente do SINDASP e diretor da Feaduaneiros do Brasil, ao lado de José Carlos Raposo Barbosa, Presidente da Feaduaneiros / Brasil. A diversidade geográfica é marcante: representantes da OMC, da ICC, da Receita Federal do Brasil, das Aduanas de Portugal, Espanha e Panamá compõem uma constelação técnico-jurídica rara de se reunir presencialmente.

A presença de Alejandro Ramos Gil — ex-presidente da ASAPRA, entidade que reúne despachantes aduaneiros de três continentes — reforça o caráter verdadeiramente internacional do encontro, projetando a voz da América Latina nas discussões sobre guerras comerciais, sanções e barreiras não tarifárias. Também estará presente Nelson Brens, presidente da ASAPRA. A entidade, que reúne profissionais aduaneiros de três continentes, tem ampliado sua atuação institucional em fóruns internacionais, fortalecendo a representação técnica do setor no debate sobre integração comercial e simplificação normativa.

IV. Arquitetura institucional e engajamento global

A estrutura institucional do evento é robusta. A ICLA lidera a organização ao lado da ODO, da SPCA Advogados e da Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa (Porto). Patrocinadores como a MIC Customs Solutions, Rangel Logistics, Morais Leitão Advogados e Fundación Aduanera reforçam o vínculo entre a doutrina e a prática.

O evento mobiliza também a imprensa especializada, redes acadêmicas, associações profissionais e o setor privado. A cobertura orgânica nas redes sociais — especialmente no LinkedIn — revela o prestígio do encontro. O engajamento de instituições como a CONFIAD e o apoio institucional do governo português — com o convite ao Primeiro-Ministro Luís Montenegro para a cerimônia de encerramento — dão à reunião um peso de cúpula internacional.

V. O Porto como alegoria aduaneira

Porto acolhe o evento como quem se reencontra com seu destino histórico. Cidade portuária, alfandegária e mercantil, que agora recebe o pensamento aduaneiro global em um edifício que já foi alfândega, num país que abriu o mundo ao comércio.

A XVII Reunião Mundial de Direito Aduaneiro não será apenas uma conferência técnica. Ela será, sobretudo, um fórum estratégico, um mapa de tendências e um radar geopolítico. Ao reunir os principais atores do Direito Aduaneiro em três línguas e múltiplos continentes, o encontro reposiciona o Porto no tabuleiro global do comércio — não mais como entreposto de mercadorias, mas como entreposto de ideias.

*Marcelo de Castro é Despachante Aduaneiro Oficial –

Diretor de Marketing Institucional do SINDASP – Responsável pelas Relações Institucionais e Comunicação da ASAPRA — Asociación Internacional de Agentes Profesionales de Aduana, organização intercontinental com representação no Comitê Consultivo do Setor Privado (PSCG) da Organização Mundial das Aduanas.

Zona Secundária como solução para as tarifas dos EUA

Por Clayton Rodrigues*

Em um cenário de tarifas imprevisíveis e aumento dos custos logísticos globais, empresas americanas estão cada vez mais recorrendo a uma solução estratégica para manter sua competitividade, as Zonas de Comércio Exterior, conhecidas como Foreign Trade Zones (FTZs) e os Recintos alfandegados, conhecidos como bonded warehouse.

Segundo reportagem da CNBC existem aproximadamente 2.240 FTZs e 1.751 bonded warehouse nos EUA.

Essas zonas, criadas nos EUA ainda na década de 1930, funcionam como áreas designadas onde as mercadorias podem ser recebidas, armazenadas, manipuladas, fabricadas ou reexportadas sem a cobrança imediata de tarifas aduaneiras. O imposto só é aplicado se e quando os produtos entrarem efetivamente no mercado americano.

Os dois modelos, tanto as Foreign Trade Zones (FTZs) e os Bonded Warehouses compartilham o objetivo comum de adiar o pagamento de tarifas de importação, suas estruturas operacionais apresentam diferenças cruciais.

Embora ambas as soluções, Foreign Trade Zones (FTZs) e Bonded Warehouses (armazéns alfandegados) permitam o armazenamento de mercadorias importadas sem o pagamento imediato de tarifas, há diferenças importantes.

Nas FTZs, as mercadorias podem ser armazenadas, manipuladas, montadas ou até mesmo fabricadas por tempo indeterminado, sem o pagamento imediato de impostos, e caso sejam exportadas, nenhuma tarifa é devida.

Nas FTZs, as mercadorias podem ser armazenadas, manipuladas, montadas ou até mesmo fabricadas por tempo indeterminado.

Já nos Bonded Warehouses (armazéns alfandegados), os produtos também entram sem tributação imediata, mas o tempo de permanência é limitado a cinco anos, e não é permitida a industrialização.

Já nos Bonded Warehouses o tempo de permanência é limitado a cinco anos, e não é permitida a industrialização.

Uma vantagem recente dos Bonded Warehouses é que, se a alíquota do imposto cair enquanto a mercadoria está armazenada, o importador pode pagar a tarifa mais baixa no momento da liberação, algo que as novas regras para FTZs não permitem mais, devido ao chamado status privilegiado. Ou seja, enquanto as FTZs oferecem maior flexibilidade industrial, os armazéns alfandegados passaram a ser mais vantajosos para mitigar incertezas tarifárias em contextos de instabilidade política e econômica.

Na prática, as FTZs oferecem maior flexibilidade operacional, enquanto os bonded warehouses têm sido preferidos em contextos de alta volatilidade tarifária, por permitirem adiar o pagamento e aproveitar possíveis reduções nas alíquotas.

Um mecanismo estratégico de Defesa Comercial

O aumento das tarifas durante a administração Trump, com sobretaxas principalmente para produtos chineses, mas também recentemente aos produtos brasileiros pressionou empresas americanas. Muitas delas, buscaram as FTZs como forma legal de atenuar esse impacto.

Não se trata de “driblar” impostos, mas de utilizar um instrumento legítimo da política comercial americana, reconhecido e regulado pelo governo dos EUA.

Lições para o Brasil

O Brasil conta com estruturas semelhantes, como os CLIA’s e Portos Secos. No entanto, em algumas regiões, a adesão e o aproveitamento ainda são baixos. O principal motivo é a ausência de um Marco Regulatório que ofereça segurança jurídica e logística, permitindo a prestação de serviços além da simples armazenagem.

Hoje, muitas atividades são transferidas para Armazéns Gerais apenas para executar pequenas etapas que, se autorizadas dentro dos Recintos de Zona Secundária, poderiam ser facilmente controladas e viabilizadas.

É possível simplificar e incentivar o uso desses Recintos Alfandegados com segurança jurídica, eficiência para a cadeia logística, facilitação do comércio e simplificação dos processos aduaneiros.

A integração entre operações industriais e aduaneiras pode reduzir significativamente os custos, ampliar margens e melhorar o tempo de resposta ao mercado.

🌎 O que podemos fazer como profissionais de Comércio Exterior?

  1. Conhecer e divulgar os regimes aduaneiros especiais e modelos de Recintos Alfandegados de Zona Secundária disponíveis no Brasil.
  2. Dialogar com entidades de classe e governo para melhorar a legislação e o acesso dos importadores e exportadores a serviços mais integrados, inteligentes e que agregam valor.
  3. Inserir a estratégia aduaneira na pauta de decisões executivas, tratando o tema não como burocracia, mas como fator de inovação e competitividade.

💡 Conclusão:

Recintos Alfandegados não são apenas um recurso técnico. São uma ferramenta estratégica que pode transformar a forma como operamos globalmente.

Se os EUA estão se reinventando para enfrentar tarifas, por que não podemos fazer o mesmo, adaptando e fortalecendo os nossos Recintos para resolver os nossos problemas logísticos? Ou não temos problemas logísticos? Não sofremos com janelas de agendamentos nos Portos e Aeroportos? Não passamos por colapsos? Por sinistros? Por tratamentos pouco amigáveis como se não fossemos, no final da conta cliente?

📣 Se você é empresário, executivo ou profissional da área de Comércio Exterior e quer entender melhor sobre como o Recinto de Zona Secundária pode ajudar sua operação, vamos conversar. https://bit.ly/4o4fKRI

 

Fonte: How U.S. Companies Are Mitigating Trump Tariffs With Foreign Trade Zones – YouTube

*Clayton Rodrigues é Gerente de Governança e Relações Institucionais da Libraport Campinas

Bruxelas 2025: O Conselho da OMA e a Nova Arquitetura das Fronteiras Inteligentes

PIN SINDASP 75 ANOS – Bruxelas / Bélgica

I. A linguagem das cúpulas e a gramática da modernidade aduaneira

A cada ciclo decisório internacional, as estruturas de governança global reelaboram, com crescente sofisticação, a gramática de seus compromissos. Não se trata apenas de encontros diplomáticos — trata-se da construção de sentidos para o próprio comércio internacional. A Organização Mundial das Aduanas (OMA), reunida em Bruxelas entre 26 e 28 de junho de 2025, protagoniza mais do que uma rodada de deliberações técnicas: consagra um ponto de inflexão na história da arquitetura aduaneira multilateral.

As sessões 145ª e 146ª do Conselho da OMA, precedidas pela 92ª reunião da Comissão de Política, reúnem os delegados das 186 administrações-membro e os principais interlocutores do setor privado para tratar de um espectro temático que reflete a complexidade dos tempos: digitalização, valoração aduaneira, comércio eletrônico, segurança de fronteiras, integridade institucional, fragilidade geopolítica, capacitação técnica, paridade de gênero, diversidade, interoperabilidade estatística e sustentabilidade.

A pauta é densa. E sua densidade é sinal de maturidade institucional. Os documentos preparatórios, o plano estratégico e os relatórios do Secretariado apresentam mais de trinta itens deliberativos. Mas o que une essa diversidade temática é a clara percepção de que a aduana deixou de ser um órgão de retaguarda — é agora protagonista de primeira linha na proteção dos fluxos lícitos, da confiança fiscal e da justiça regulatória.

 

II. A institucionalidade como vetor de transformação

É recorrente nas grandes cúpulas multilaterais a tentação de confundir o simbólico com o performático. No entanto, a OMA distingue-se por um pragmatismo jurídico-operacional que a coloca como referência para instituições como a OMC, a UNCTAD, a OCDE e os fóruns regionais de integração. O seu Conselho é o coração político da entidade; é ali que se cruzam os vetores técnicos e os imperativos estratégicos.

Sob a liderança do Secretário-Geral Ian Saunders, os membros debaterão a atualização do Plano Estratégico 2025–2028, a implementação do Plano de Modernização da Organização, a revisão do formato de deliberação e até mesmo a adoção de sistemas eletrônicos de votação. Também serão apresentados os relatórios dos comitês de integridade, finanças, auditoria e dos grupos técnicos dedicados à capacitação, classificação, valoração e regras de origem. A pluralidade dos temas, porém, converge para uma matriz comum: a necessidade de redefinir o papel da aduana como ente transversal, cuja missão transcende o controle fiscal e alcança a proteção do interesse público em sua mais ampla acepção.

 

III. Aduanas verdes e a projeção de Belém no cenário global

Entre os pontos mais significativos da agenda política está a Declaração de Baku sobre Aduanas Verdes, proposta pelo Azerbaijão. Trata-se de um marco emergente: pela primeira vez, o Conselho da OMA poderá se pronunciar de forma vinculada à proteção ambiental, associando o cumprimento das obrigações aduaneiras à responsabilidade climática.

Essa decisão não se dá no vácuo. Ela prepara terreno para debates estruturantes na COP30, que será realizada em Belém do Pará, em novembro de 2025. Se aprovada, a Declaração sinalizará ao mundo que as aduanas não estão à margem da transição ecológica global, mas na linha de frente — fiscalizando o comércio de resíduos perigosos, produtos sensíveis, carbono embutido, minerais críticos e cadeias de valor que impactam diretamente o meio ambiente.

Essa é, sem dúvida, a nova fronteira: a da aduana como agente ambiental de soberania e de compromisso com os limites planetários.

 

IV. O setor privado como parte da equação estratégica

Outro ponto sensível — e por isso central — será o debate sobre a atuação do Grupo Consultivo do Setor Privado (PSCG). Trata-se de um espaço permanente e institucionalizado de escuta e cogestão entre a OMA e os operadores privados que vivem, na prática, os efeitos da regulação aduaneira. A ASAPRA, organização intercontinental que congrega os agentes profissionais de aduana da América Latina, América do Norte, Caribe, Europa e África, participa ativamente desse espaço.

A pauta também inclui discussões sobre preços de transferência e a valoração aduaneira de mercadorias em ambientes de grupo multinacional — tema que será debatido no painel “Mind the Gap!”. A aduana, nesse contexto, busca articulação técnica com autoridades fiscais para evitar dupla tributação, subfaturação artificial ou erosão de base tributária. Um segundo painel tratará da abordagem baseada em dados para enfrentar o crescimento exponencial do comércio eletrônico, enquanto o terceiro abordará a capacitação sob novo paradigma, com ênfase na corresponsabilidade e nos impactos mensuráveis.

Para os despachantes aduaneiros, a leitura é clara: estamos sendo cada vez mais convocados não apenas a cumprir normas, mas a contribuir com sua legitimidade e aplicabilidade. Somos agentes técnicos e institucionais entre o Estado e o mercado. E é nesse ponto que reside nossa relevância contemporânea.

 

V. Bruxelas como encruzilhada do futuro

Ao final da reunião, o Conselho conduzirá eleições para seus cargos diretivos, os comitês de política, finanças e auditoria. Também será apresentada a agenda global da OMA para o período 2025–2026. Mas o que está em jogo não se resume a nomes ou relatórios. Trata-se da reafirmação do papel das aduanas como espaços de intersecção entre soberania e inteligência transfronteiriça.

Em tempos de reorganização geopolítica, riscos sistêmicos e disputas tecnológicas, as aduanas não são apenas instrumentos de controle. São instituições de confiança pública, alicerçadas na técnica, na legalidade e na capacidade de adaptação contínua. O Conselho da OMA é, portanto, mais do que um espaço técnico. É um espaço de mundo.

Como disse certa vez Henry Thompson Argüello, “uma fronteira só é legítima quando reconhecida por ambos os lados — o do Estado e o da dignidade humana.” Que Bruxelas 2025, sob o rigor institucional da OMA e o impulso criativo das novas lideranças, saiba honrar essa verdade.

 

Marcelo de Castro Ferreira – Despachante Aduaneiro Oficial -Diretor de Marketing Institucional do SINDASP – Responsável pelas Relações Institucionais e Comunicação da ASAPRA — Asociación Internacional de Agentes Profesionales de Aduana, organização intercontinental com representação no Comitê Consultivo do Setor Privado (PSCG) da Organização Mundial das Aduanas.

Operação Thunder 2024: O Assalto Final Contra a Natureza e o Papel do Comércio Global

Por Marcelo de Castro Ferreira*

Os números são contundentes. O impacto, avassalador. E a pergunta que se impõe é: até quando?

Entre 11 de novembro e 6 de dezembro de 2024, a World Customs Organization (WCO) e a INTERPOL lideraram a Operação Thunder 2024, uma ofensiva coordenada contra o tráfico internacional de vida selvagem e produtos florestais. O resultado expõe a escala do problema: quase 20.000 animais vivos resgatados, 365 suspeitos detidos, 2.213 apreensões em 138 países. Mas o que esses números revelam vai além das operações policiais – eles apontam para um modelo econômico que, há décadas, vem transformando a natureza em mercadoria e o crime ambiental em um dos negócios ilícitos mais lucrativos do mundo.

De acordo com a WCO, o tráfico de espécies protegidas movimenta entre USD 7 e 23 bilhões por ano, figurando entre os crimes transnacionais mais rentáveis, ao lado do tráfico de drogas e de armas. Mas há uma peculiaridade que o distingue dos demais: ele é invisível para muitos, diluído nos meandros do comércio global. Contêineres, pacotes de remessas expressas, encomendas postais e mercados digitais tornam-se vias silenciosas para um fluxo contínuo de produtos ilegais – escamas de pangolim, barbatanas de tubarão, marfim, madeira extraída de florestas intocadas. Tudo escondido à vista de todos.

Se, em tempos passados, a devastação ambiental era percebida como um subproduto da expansão econômica, hoje está claro que a destruição da biodiversidade é um risco existencial. O tráfico de fauna e flora não é apenas um atentado contra os ecossistemas, mas uma ameaça à segurança internacional, alimentando redes criminosas sofisticadas que financiam corrupção, lavagem de dinheiro e outras atividades ilícitas.

A Geopolítica do Tráfico: Os Números da Operação Thunder

A análise das apreensões da Operação Thunder 2024 oferece um panorama inquestionável sobre a devastação em curso:

Animais Vivos Apreendidos

  • Pássaros: 12.427
  • Tartarugas: 5.877
  • Outros répteis: 1.731
  • Primatas: 33
  • Grandes felinos: 18
  • Pangolins: 12

Produtos Derivados do Tráfico de Fauna e Flora

  • Madeira ilegal: 214,9 toneladas e 1.340 m³
  • Marfim de elefantes: 303 kg e 348 peças, além de 1.512 kg de partes do corpo
  • Escamas de pangolim: 4.488 kg
  • Peças de tigres e outros grandes felinos: 100 unidades
  • Produtos marinhos, incluindo barbatanas de tubarão e pepinos-do-mar: 5,9 toneladas

A geografia do tráfico é um espelho da realidade geoeconômica global: mercadorias extraídas em um hemisfério, transportadas clandestinamente por rotas transcontinentais, e consumidas em mercados de luxo do outro lado do planeta. E, no epicentro desse comércio ilícito, encontram-se as fronteiras alfandegárias.

Aduanas Verdes e a Fronteira Como Espaço de Proteção Ambiental – Diante desse cenário, as administrações aduaneiras assumem um papel determinante na contenção do tráfico ambiental. A Iniciativa Aduanas Verdes, da WCO, surge como uma resposta estruturada para fortalecer a fiscalização e o cumprimento dos Acordos Ambientais Multilaterais (MEAs), como a Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção (CITES).

Desde 2001, a WCO, em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP), tem promovido capacitação técnica para os agentes alfandegários, visando aprimorar a detecção e repressão ao comércio ilegal de espécies protegidas. A CITES, por sua vez, estabelece o arcabouço legal para a regulamentação do comércio de mais de 38.000 espécies de fauna e flora, conferindo aos países-membros mecanismos para barrar a exploração predatória da biodiversidade.

Entretanto, a eficácia dessas medidas depende diretamente do envolvimento do setor privado, especialmente das empresas de transporte, logística, e-commerce e serviços financeiros, cujas plataformas são frequentemente utilizadas por redes criminosas para movimentar cargas ilícitas.

O Setor Privado: Cúmplice ou Guardião? – Se há um elemento inegável nesse complexo xadrez, é que o setor privado desempenha um papel crítico – para o bem ou para o mal. Muitas empresas, sem qualquer intenção criminosa, tornam-se veículos involuntários para o tráfico de vida selvagem. Outras, por falta de regulamentação ou fiscalização, preferem ignorar o problema.

Diante disso, algumas medidas são imperativas:

  • Monitoramento da cadeia de suprimentos: Transportadoras e empresas de logística precisam adotar tecnologias de rastreamento que permitam identificar remessas suspeitas.
  • Controle sobre plataformas de e-commerce: Marketplaces digitais devem implementar sistemas de verificação para impedir a venda de produtos derivados de espécies protegidas.
  • Transparência financeira: Instituições bancárias e fintechs precisam aprimorar mecanismos de due diligence para rastrear transações associadas ao tráfico de vida selvagem e madeira ilegal.
  • Adesão a iniciativas globais: Empresas comprometidas com práticas ESG devem engajar-se em programas como a Green Customs Initiative e a United for Wildlife Transport Taskforce.

O setor privado não pode continuar permeável à atividade criminosa nem blindado contra sua própria responsabilidade. Como bem destacou Valdecy Urquiza, Secretário-Geral da INTERPOL, “as redes criminosas exploram a natureza para lucrar com a ganância humana, gerando impactos devastadores para a biodiversidade, o clima e a segurança global”.

O Futuro que escolheremos – Se a história recente nos ensinou algo, é que o colapso ambiental não é uma ficção distante, mas uma realidade já em curso. Os números da Operação Thunder 2024 não são meramente estatísticas de um crime transnacional – são símbolos do destino da vida no planeta.

Quando olharmos para trás e nos perguntarmos como deixamos a Terra chegar a esse ponto, a resposta não estará apenas nos caçadores furtivos, nos madeireiros ilegais ou nos traficantes. Estará nas políticas públicas que falharam, nas empresas que preferiram não ver, nos consumidores que continuaram comprando.

A WCO e a INTERPOL estão cumprindo seu papel. Mas o combate ao tráfico de vida selvagem não será vencido apenas nos corredores das alfândegas ou nas operações policiais. Ele será decidido no campo econômico, na integridade das cadeias de suprimentos e na responsabilidade das corporações globais.

O comércio internacional pode ser um instrumento de destruição ou um mecanismo de proteção. Cabe a nós decidir qual será seu legado.

*Marcelo de Castro Ferreira é Despachante Aduaneiro e Head de Marketing Institucional do SINDASP (Sindicato dos Despachantes Aduaneiros de São Paulo) e da ASAPRA (Asociación Internacional de Agentes Profesionales de Aduanas)

 

 

 

 

 

Dia Internacional das Aduanas: o setor público, privado e a academia

Por Elson Isayama, Presidente do SINDASP*

O 26 de janeiro é marcado pelo “Dia Internacional das Aduanas”. Um momento para refletirmos sobre o papel essencial de todos aqueles que, diariamente, estruturam e fortalecem o comércio exterior brasileiro. Em sintonia com a campanha da OMA (Organização Mundial das Aduanas) para 2025 – “As Aduanas Cumprindo seu Compromisso com Eficiência, Segurança e Prosperidade” –, reafirmamos a importância da sinergia entre as administrações aduaneiras, as empresas, as organizações do setor privado e a academia, que, juntas, moldam o futuro do nosso setor.

Nenhum país alcança um comércio exterior robusto sem uma base sólida de colaboração. O setor público estabelece o arcabouço regulatório e a infraestrutura aduaneira, o setor privado impulsiona o crescimento econômico e a academia gera conhecimento e inovação para modernizar processos. São essas forças, quando atuam de maneira integrada, que tornam o ambiente de negócios mais competitivo e o comércio internacional mais previsível e seguro.

Os despachantes aduaneiros desempenham um papel central nesse ecossistema. Somos profissionais altamente qualificados, que transformam a complexidade das operações aduaneiras em processos estruturados, promovendo a conformidade regulatória e a segurança jurídica que as empresas precisam para crescer. Em um mundo cada vez mais digitalizado e interconectado, onde 80% do comércio internacional depende de processos logísticos eficientes, segundo o Fórum Econômico Mundial, a infraestrutura aduaneira e a cooperação entre os diferentes setores são determinantes para a competitividade das economias nacionais.

Mas, o verdadeiro progresso não acontece de forma isolada. Nenhuma economia avança sem investir na qualificação de sua mão de obra e na modernização de sua infraestrutura. De acordo com o Fórum Econômico Mundial, até 2027, mais de 60% dos trabalhadores globais precisarão de requalificação profissional. No setor aduaneiro, essa realidade se impõe com ainda mais força. A modernização dos processos exige que estejamos preparados para atuar com novas tecnologias, inteligência artificial e plataformas digitais, promovendo uma sinergia real entre aduanas, empresas e universidades para otimizar os fluxos de comércio e fortalecer a formação de profissionais altamente capacitados.

E é aqui que o SINDASP se destaca: não apenas como uma entidade representativa da nossa categoria profissional, mas como um parceiro estratégico no fortalecimento das políticas de comércio exterior, no fomento à modernização da infraestrutura logística e na promoção da qualificação profissional.

Nesse contexto, a plataforma digital EduComex assume um papel fundamental. Criada para promover capacitação e atualização contínua, a Educomex aproxima o setor produtivo e a academia, disponibilizando conteúdos especializados, treinamentos e certificações que acompanham as constantes transformações do setor. Acreditamos que, ao fortalecer essa conexão entre conhecimento técnico e aplicação prática, contribuímos para uma categoria mais bem preparada e um comércio exterior mais dinâmico.

A segurança de que falamos hoje vai além da proteção das fronteiras. É também a segurança econômica, a previsibilidade de que as regras serão respeitadas, de que o comércio ilícito será combatido e de que as cadeias logísticas continuarão íntegras e confiáveis. Esse é o alicerce de um ambiente de negócios sólido, onde empresas encontram estabilidade para crescer, empregos são gerados e a economia se fortalece.

Por isso, mais do que nunca, é essencial consolidarmos a aliança entre setor público, setor privado e academia. Somente por meio da cooperação podemos criar soluções inovadoras e ampliar a competitividade do Brasil no cenário internacional.

Muito obrigado pelo trabalho incansável de cada um de vocês. Sigamos juntos, fortalecendo essa parceria, investindo em infraestrutura e qualificação, e promovendo a sinergia necessária para um comércio exterior mais eficiente, seguro e próspero.

*ELSON ISAYAMA é presidente do SINDASP (Entidade que representa os Despachantes Aduaneiros em São Paulo) e recebeu em 03/01/25 o “Certificado Mérito da Organização Mundial das Aduanas”, conferido pela Receita Federal do Brasil, através da portaria de pessoal SUANA, nº 1 de 3 de janeiro de 2025.