Teoria do Nobel de Economia inspira estudo “Aduana das Expectativas: o custo invisível de uma fronteira imprevisível”

Inspirado nas teorias dos vencedores do Nobel de Economia de 2026, estudo de Marcelo de Castro Ferreira propõe olhar além do tempo médio de liberação e examina o valor da informação na intermediação aduaneira.

Uma aduana pode ser rápida e, ainda assim, cara. Imagine duas fronteiras que liberam mercadorias em cinco dias, em média. Na primeira, quase todas as cargas saem nesse intervalo. Na segunda, algumas passam em horas e outras ficam retidas por duas semanas. A média é a mesma; a conta, não. A diferença reaparece em estoques, capital de giro, contratos e investimentos que talvez nunca sejam realizados.

É essa a provocação do working paper Aduanas das Expectativas, do economista e despachante aduaneiro Marcelo de Castro Ferreira. O trabalho parte de uma inspiração pouco usual para o setor: as contribuições de Robert E. Hall e Michael Woodford, laureados com o Nobel de Economia de 2026. Os dois não formularam teorias aduaneiras. Sua relevância para o argumento está no comportamento prospectivo dos agentes: decisões tomadas hoje dependem daquilo que se espera do amanhã.

Uma importação começa economicamente antes da chegada do navio. O fornecedor foi escolhido, o preço acertado e o financiamento contratado quando o importador ainda não sabe quanto tempo a carga permanecerá na fronteira. O custo da aduana, portanto, não nasce apenas no desembaraço. Parte dele já estava embutida na decisão de comerciar.

 

O preço da incerteza – A economia do comércio exterior conhece o custo do tempo. David Hummels e Georg Schaur estudaram o tempo como barreira comercial; Kyle Handley e Nuno Limão examinaram como a incerteza da política comercial altera investimentos e a entrada de empresas em mercados externos. A contribuição proposta por Ferreira não é descobrir que atrasos custam dinheiro, mas combinar prazo esperado, dispersão dos resultados e qualidade da informação num modelo aplicado à fronteira.

No Modelo da Aduana das Expectativas (MAE), a firma avessa ao risco decide quanto comerciar levando em conta tanto o tempo médio de liberação quanto sua variância. Sob as hipóteses do modelo, mesmo sem aumento da média, maior dispersão pode reduzir a quantidade ótima comercializada. Para uma pequena empresa, o efeito pode ser mais severo: o estoque de segurança e o financiamento adicional podem tornar uma operação inviável.

Daí uma conclusão desconfortável para quem mede eficiência apenas com médias: reduzir um prazo de seis para cinco dias nem sempre vale mais do que tornar confiável um prazo de cinco. Mediana, desvio padrão e percentil 90, que indica o prazo em que 90% das operações foram concluídas, ajudariam a revelar a cauda dos atrasos. A metodologia Time Release Study da Organização Mundial das Aduanas oferece um ponto de partida para essa análise.

O controle não precisa ser uma surpresa – Decisões antecipadas, processamento antes da chegada, gerenciamento de risco e janela única são normalmente apresentados como instrumentos de simplificação. Também podem funcionar como mecanismos de redução da incerteza. Conhecer previamente o tratamento regulatório de uma mercadoria pode influenciar o preço negociado antes que ela seja embarcada.

Isso não transforma previsibilidade em virtude suficiente. Uma aduana que demora invariavelmente vinte dias é previsível, mas continua onerosa. O objetivo econômico é combinar prazos menores com resultados mais consistentes, sem enfraquecer a fiscalização.

 

O intermediário e a informação – O aspecto mais instigante do estudo talvez esteja no despachante aduaneiro. Em vez de tratá-lo apenas como executor de formalidades, o modelo examina sua função como intermediário de informação, conformidade e coordenação.

Há dois canais distintos. No primeiro, o profissional melhora a previsão. Se uma empresa espera liberação em três dias e uma análise especializada indica oito, a notícia é ruim, mas pode evitar uma decisão pior. Uma expectativa precisa vale mais do que uma expectativa otimista. No segundo, o intermediário pode reduzir atrasos evitáveis, por exemplo, ao prevenir inconsistências documentais ou coordenar melhor os participantes da operação.

O modelo não supõe que o despachante controle decisões da autoridade. Há valor econômico líquido quando os benefícios de informação e conformidade superam o preço do serviço. Essa condição afasta a discussão da defesa da burocracia e a aproxima da economia dos custos de transação. Num ambiente cada vez mais automatizado, transmitir dados tende a valer menos; interpretá-los corretamente pode continuar valendo muito.

 

A fronteira antes da fronteira – Ferreira resume sua leitura da Facilitação do Comércio em três dimensões: velocidade, confiabilidade e acessibilidade. A última importa porque a incerteza não afeta somente o volume das operações existentes; pode determinar quais empresas conseguem participar do comércio internacional.

O working paper apresenta cinco simulações gráficas e hipóteses. Ferreira é economista e despachante aduaneiro, CEO da EBIMEX Comércio Exterior, Diretor Secretário Adjunto do SINDASP e atuou na assessoria de Marketing Institucional da ASAPRA entre 2023 e 2025.

A provocação final é econômica, não burocrática: uma fronteira pode impor custos muito antes de receber uma carga, assim como pode produzir valor antes de liberá-la. Se empresas conseguem antecipar com confiança o ambiente que encontrarão, deixam de imobilizar parte do capital destinado a se proteger do desconhecido. A aduana mais eficiente talvez não seja apenas aquela que libera depressa, mas aquela que permite decidir melhor.

 

Leia o estudo: https://drive.google.com/file/d/10u_pkmJb_frELV-xfFn9H6Ow6tAqlRyN/view?usp=drivesdk